Diário do fim do mundo
- Loba Inácio
- 20 de jun.
- 3 min de leitura

Eu vou aproveitar esse espaço ainda como sendo um dos poucos territórios não habitados na minha indústria digital, pra falar das coisas do coração (sim, pasmem, eu tenho um também.
Eu conheci uma pessoa. Na verdade, minha empresa conheceu uma empresa.
E essa empresa me conheceu, também. Mas até onde a história acontece de forma corporativa, tudo está conforme.
Acontece que a admiração que eu senti pela mente que criou a tal empresa acabou despertando uma fome em mim, que aparentemente foi recíproca.
De repente, me vi cantando monomania e com sérias e intensas crises de ansiedade por me deparar com um silêncio ensurdecedor.
Mas essa situação de uma forma ainda mais intensa tem me ensinado muito sobre mim mesma, como por exemplo: exatamente onde dói quando a resposta da minha comunicação é uma porta fechada em silêncio?
E eu, que encontro o caminho dos meus sentimentos através das músicas, me peguei escutando ''Dorme Angelita'' com minha filha nos braços.
Que coisa mais inusitada, eu pensei. Julgando dentro de mim as feridas deixadas pelo meu pai, enquanto tento curar em minha filha as feridas deixadas por mim, porque no final do dia somos todos apenas seres humanos tentando fazer um bom trabalho com a coleção de feridas que a vida deixa na pele.
Acabei roendo ainda mais minhas unhas já roídas e chorei o dia inteiro. Chorei desses choros de soluçar, colocar a mão no peito, gritar e cantar Adele.
Já ouvi diversas teoria sobre como chorar nos torna mais ''vulneráveis'' e sobre como deveríamos esconder nossos sentimentos... Inclusive, essa alma que minha alma reencontrou, o tal criador da empresa, era uma dessas almas que acreditava não poder demonstrar sua vulnerabilidade, e eu gostaria muito que nossa comunicação tivesse se estendido a tal ponto que eu tivesse a chance de comunicar essa verdade, mas isso acabou não acontecendo, diante do tamanho do muro do silêncio que foi colocado.
Mas, eu discordo completamente dessa teoria.
Tenho pra mim que pessoas que sabem administrar os próprios sentimentos, inclusive os negativos, são as pessoas mais significativamente fortes que existem.
E isso não significa fingir que não existem.
Nossos sentimentos são como uma panela de pressão. Se não tivermos cuidado com a ferramenta, ela explode na nossa cara a qualquer momento.
Imagina chorar no meio de uma reunião porque não planejou o choro no banho de sábado as 11h? Deus que me livre.
Pois hoje eu chorei.
Chorei de luto.
Luto por quem eu era.
Chorei de um luto profundo quando percebi que foram 15 anos rastreando uma dor absurda e paralisante que por muito tempo tomou conta de mim e me deixou amarga como ser humano, mas que hoje não me domina mais.
Mesmo que um dia eu pense que hoje estou falando bobagem, mas pelo menos hoje, agora
Enquanto juntava os fragmentos de mim que esperavam o retorno de um semi desconhecido, esperando que ele me escolhesse também já que eu o havia escolhido... Que eu me lembrei por quantas vezes eu passava dias e mais dias esperando que meu pai me escolhesse.
Também um sentimento meio bobo, tendo em vista que éramos pelo menos dois irmãos, além de todas as outras crianças que meus pais criavam... Mas eu sou a caçula. Sou M I M A D A e simplesmente coloquei no meu cérebro de mocinha que eu precisava ser escolhida absolutamente todas as vezes por todos (sim amigos, no passado eu era super PICK ME) e isso fez de mim insuportável por muito tempo.
Mas, como adulta, não faz muito sentido que essa dor se arraste, sendo somente um semi desconhecido e um romance rápido de novela mexicana, coisa fina e elegante que eu adoro... Então, qual é a questão?
E todo esse entendimento me levou para a minha primeira consagração de medicina, quando eu vi meu pai ainda bebe no colo de minha avó.
O tempo é algo realmente implacável, e, sendo cada ser humano um universo inteiro diante de todo o seu tempo e espaço de mundo que nós não temos acesso... Realmente podemos julgar as ações de alguém como certas ou erradas?
Então, depois de dar tantas voltas no meu próprio silêncio... Eu volto aqui. Onde apenas o presente existe.
Eu volto onde meu cérebro e meus ouvidos doem e muito quando eu já ouvi a palavra ''mãe'' cerca de 756 vezes de cada uma das crianças, de quando eu não aguento mais atender a todas as necessidades alheias enquanto as minhas carecem de um mínimo de atenção.
Eu volto aqui onde minhas unhas estão roídas e eu roí ainda mais enquanto pensava na complexidade de todos esses pensamentos e nas partes de mim que ainda existem pra eu tentar salvar antes que seja tarde.
Então....
20.06.2026





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